Câncer de intestino (colorretal) é o tumor que nasce no cólon ou no reto, quase sempre a partir de um pólipo que cresce devagar ao longo de anos. Os sinais mais comuns são sangue nas fezes, mudança no hábito intestinal e anemia sem causa clara. Descoberto cedo, o tratamento costuma ser cirúrgico e a cura é possível.
Por Dr. Lucca Jaeger, cirurgião geral com atuação em cirurgia oncológica e robótica no Rio de Janeiro.
Neste guia
- O que é o câncer de intestino
- Primeiros sinais
- Causas e fatores de risco
- Como é feito o diagnóstico
- Quando fazer colonoscopia
- Como saber se está avançado
- Tratamento do câncer de cólon e de reto
- Como é a cirurgia
- Bolsa de colostomia
- Recuperação
- Tem cura?
- Acompanhamento
- Prevenção
- Perguntas para levar à consulta
- Perguntas frequentes
O que é o câncer de intestino?
O intestino grosso tem duas partes: o cólon, que forma a maior parte do trajeto, e o reto, os últimos centímetros antes do ânus. O câncer pode surgir em qualquer uma delas, e por isso também é chamado de câncer colorretal.
Na maioria das vezes, o tumor começa como um pólipo: uma pequena elevação na parede interna do intestino. Nem todo pólipo vira câncer, mas alguns tipos (os adenomas) podem se transformar ao longo dos anos. Retirar o pólipo durante a colonoscopia interrompe esse caminho.
Separar cólon e reto não é detalhe: o tratamento é diferente para cada um, como explicado mais abaixo.

Quais são os primeiros sinais de câncer de intestino?
No início, o câncer de intestino costuma não dar sintomas. Quando aparecem, os mais comuns são:
- Sangue nas fezes ou no papel higiênico, vermelho vivo ou escuro
- Mudança no hábito intestinal que dura semanas: intestino preso, diarreia ou alternância entre os dois
- Sensação de evacuação incompleta, mais típica dos tumores de reto
- Dor ou cólica abdominal frequente, gases e inchaço
- Anemia sem causa aparente, com cansaço e palidez
- Perda de peso sem explicação
Nenhum desses sinais, sozinho, confirma câncer. Hemorroidas, fissuras e doenças inflamatórias causam vários deles. O que pede avaliação é o sintoma que persiste, que foge do padrão habitual ou que vem junto com anemia ou emagrecimento.
Como ficam as fezes de quem tem câncer de intestino?
Não existe um aspecto típico. Podem aparecer sangue vivo misturado às fezes, fezes escuras e pegajosas (sangue digerido, chamado melena), muco ou, em alguns tumores mais baixos, fezes mais finas que o habitual. A mudança em relação ao padrão de cada pessoa vale mais do que a forma em si.
O que causa o câncer de intestino?
Não há uma causa única. O risco aumenta com a soma de fatores:
- Idade: o risco cresce ao longo da vida
- Histórico familiar de câncer colorretal ou de pólipos
- Síndromes hereditárias, como a síndrome de Lynch e a polipose adenomatosa familiar
- Doença inflamatória intestinal de longa data (retocolite ulcerativa e doença de Crohn)
- Consumo frequente de carne processada e excesso de carne vermelha
- Obesidade, sedentarismo, tabagismo e álcool
Nos últimos anos, cresceram os diagnósticos em adultos jovens. Por isso, sangramento ou mudança do hábito intestinal não deve ser atribuído a hemorroida só por causa da idade.
Como é feito o diagnóstico?
O exame central é a colonoscopia: uma câmera percorre todo o intestino grosso, sob sedação, para localizar a lesão, retirar pólipos e colher biópsia. O diagnóstico só é confirmado pela biópsia.
Confirmado o câncer, vem o estadiamento, a etapa que mede a extensão da doença e orienta o tratamento:
- Tomografia de tórax e abdome, para avaliar fígado, pulmões e linfonodos
- Ressonância da pelve, no câncer de reto, para medir a profundidade do tumor e a distância até a margem da cirurgia
- Dosagem do marcador CEA no sangue, usada como referência no acompanhamento
- Pesquisa de instabilidade de microssatélites (MSI/dMMR) na biópsia, recomendada pelas diretrizes da NCCN e da ESMO em todos os casos, porque muda o tratamento de parte dos pacientes

Quando fazer colonoscopia ou exame de rastreamento?
Rastreamento é procurar o câncer, ou o pólipo que vem antes dele, em quem não tem sintomas. É a forma mais eficiente de reduzir mortes pela doença.
Em 2026, o Ministério da Saúde adotou o teste imunoquímico fecal (FIT), que detecta sangue oculto nas fezes, como exame de referência no SUS para homens e mulheres sem sintomas entre 50 e 75 anos. Se o teste der positivo, a investigação continua com exames complementares, em geral a colonoscopia.
Quem tem histórico familiar, síndrome hereditária ou doença inflamatória intestinal costuma precisar começar antes, repetir com mais frequência e fazer colonoscopia direto. A idade de início e o intervalo devem ser definidos em consulta.
Quem já tem sintomas não está em rastreamento, e sim em investigação. Nesse caso, o exame indicado é a colonoscopia.
Como saber se o câncer de intestino está avançado?
Os sintomas não dizem o estágio: um tumor inicial pode sangrar, e um avançado pode passar despercebido. Quem define é o estadiamento, que combina exames de imagem e a análise da peça retirada na cirurgia.
| Estágio | O que significa | Abordagem habitual |
|---|---|---|
| I | Tumor restrito às camadas internas da parede do intestino | Cirurgia; em lesões muito iniciais, às vezes só a retirada pela colonoscopia |
| II | Tumor atravessa a parede, sem linfonodos comprometidos | Cirurgia; quimioterapia complementar em casos selecionados |
| III | Linfonodos próximos comprometidos | Cólon: cirurgia e quimioterapia. Reto: sequência definida caso a caso |
| IV | Doença em outros órgãos, como fígado, pulmão ou peritônio | Tratamento sistêmico; cirurgia das metástases em casos selecionados |
Emagrecimento importante, obstrução intestinal (barriga distendida, vômitos, parada de eliminação de gases e fezes) e alteração dos exames do fígado sugerem doença mais avançada, mas só os exames confirmam.
Como é o tratamento do câncer de intestino?
O plano depende do local do tumor (cólon ou reto), do estágio e das características biológicas do tumor. O ideal é que seja discutido em equipe multidisciplinar, com cirurgião, oncologista clínico, radioterapeuta, radiologista e patologista.
Câncer de cólon
Na doença localizada, a base é a cirurgia: retirada do segmento do intestino com o tumor, com margem de segurança e os linfonodos da região, seguida da reconexão das alças (anastomose). Conforme a análise da peça, pode haver indicação de quimioterapia depois da cirurgia (adjuvante), sobretudo no estágio III.
Em tumores localmente avançados, as diretrizes admitem quimioterapia antes da cirurgia em casos selecionados.
Câncer de reto
No reto, o tratamento é mais individualizado. Dependendo do estágio, da distância do tumor até o ânus, da ressonância e do perfil molecular, as opções incluem:
- Cirurgia como primeiro passo, em tumores iniciais, sem linfonodos comprometidos e com margem preservada
- Tratamento antes da cirurgia (neoadjuvante), com radioterapia e/ou quimioterapia, em tumores localmente avançados. Em parte dos pacientes com resposta completa, é possível discutir a observação vigilante (watch and wait), sem cirurgia imediata
- Tratamento sistêmico sem cirurgia imediata, como a imunoterapia em tumores com instabilidade de microssatélites (dMMR/MSI-H), que pode levar ao desaparecimento do tumor em muitos pacientes
Por isso, duas pessoas com câncer de reto podem ter tratamentos bem diferentes, e a ordem das etapas pesa tanto quanto as etapas em si.
Doença com metástases
Quando há metástases, a base é o tratamento sistêmico: quimioterapia, terapia-alvo ou imunoterapia, conforme o perfil do tumor. Em casos selecionados, especialmente com metástases limitadas ao fígado ou ao pulmão, a cirurgia das metástases faz parte de um tratamento com intenção curativa.

Como é a cirurgia de câncer de intestino?
A cirurgia retira o trecho do intestino com o tumor e os linfonodos que drenam aquela região. O nome muda conforme o local (colectomia direita, colectomia esquerda, sigmoidectomia, ressecção anterior do reto), mas o princípio oncológico é o mesmo.
Ela pode ser feita de três formas:
- Aberta, com incisão no abdome
- Por vídeo (laparoscopia), com pequenas incisões e uma câmera
- Robótica, em que o cirurgião opera por um console, com visão 3D ampliada e instrumentos articulados
Nas vias minimamente invasivas, vídeo e robótica, a recuperação tende a ser mais rápida e com menos dor. A NCCN considera essas vias seguras quando feitas por cirurgião experiente, com ressalva para tumores de reto localmente avançados com a margem ameaçada.
No reto, a pelve estreita torna a dissecção mais difícil, e é onde a robótica mais ajuda. O estudo randomizado REAL, publicado no JAMA em 2025, comparou robótica e laparoscopia no câncer de reto médio e baixo e mostrou ressecções de melhor qualidade oncológica com a robótica. A escolha da via depende do tumor, do paciente e da experiência da equipe. Mais detalhes na página sobre cirurgia robótica para câncer de intestino no Rio de Janeiro.
Vou precisar usar bolsa de colostomia?
Nem sempre. E nem sempre é definitiva.
Na maior parte das cirurgias de cólon, o intestino é reconectado na mesma operação, sem bolsa. Nas cirurgias de reto baixo, é comum fazer uma ileostomia temporária para proteger a emenda enquanto ela cicatriza. Ela é fechada depois, em uma cirurgia menor.
A bolsa definitiva (colostomia) fica reservada aos casos em que o tumor está muito perto do ânus ou envolve o músculo do esfíncter. Quando é necessária, há acompanhamento com equipe de estomaterapia, e a rotina de trabalho, exercício e viagens costuma ser retomada.
Como é a recuperação da cirurgia?
Os protocolos de recuperação acelerada (ERAS) estimulam a alimentação e a caminhada já nas primeiras horas ou no dia seguinte à cirurgia. O tempo de internação varia conforme a cirurgia e a via, e costuma ser de poucos dias nas cirurgias minimamente invasivas.
- Dieta reintroduzida de forma gradual
- Caminhadas desde o início, para reduzir o risco de trombose e ajudar o intestino a voltar a funcionar
- Esforço físico e carga liberados de forma progressiva
- Mudanças no ritmo intestinal são comuns nas primeiras semanas, principalmente após cirurgia de reto
Depois de cirurgia de reto, parte dos pacientes tem evacuações fracionadas e urgência (síndrome da ressecção anterior do reto). Costuma melhorar ao longo dos meses e tem tratamento.
Câncer de intestino tem cura?
Sim, em muitos casos. A chance de cura é maior quanto mais cedo a doença é descoberta, e mesmo parte dos pacientes com metástases limitadas pode ser tratada com intenção curativa.
O resultado depende do estágio, da biologia do tumor e da qualidade do tratamento. Uma cirurgia oncológica bem feita, com retirada adequada dos linfonodos, é um dos pilares.
Como é o acompanhamento depois do tratamento?
O seguimento inclui consultas, dosagem de CEA, tomografias e colonoscopias em intervalos definidos pelas diretrizes, mais próximos nos primeiros anos, quando o risco de a doença voltar é maior. A colonoscopia também serve para encontrar novos pólipos.
Dá para prevenir o câncer de intestino?
- Fazer o rastreamento na idade indicada, e antes se houver histórico familiar
- Retirar os pólipos encontrados na colonoscopia
- Manter o peso adequado e praticar atividade física regular
- Reduzir carnes processadas e o excesso de carne vermelha, e priorizar fibras, frutas, verduras e grãos integrais
- Não fumar e moderar o álcool
Perguntas para levar à consulta
- O tumor está no cólon ou no reto? Em que estágio?
- A pesquisa de MSI/dMMR foi feita? Muda alguma coisa no meu caso?
- Qual é a sequência do tratamento: cirurgia primeiro ou tratamento antes?
- A cirurgia pode ser por vídeo ou robótica?
- Vou precisar de bolsa? Temporária ou definitiva?
- O caso será discutido em reunião multidisciplinar?
- Meus familiares precisam fazer exames mais cedo?
Perguntas frequentes
Como diferenciar hemorroida de câncer de intestino?
Pelos sintomas, não dá para ter certeza. Os dois podem causar sangramento vivo. A hemorroida não muda o hábito intestinal nem causa anemia ou emagrecimento, mas pode existir junto com um tumor. Sangramento novo ou persistente pede avaliação médica e, muitas vezes, colonoscopia.
Câncer de intestino é hereditário?
Na maioria das vezes, não. Uma parcela menor dos casos está ligada a síndromes hereditárias, como a síndrome de Lynch e a polipose adenomatosa familiar. Vários parentes com câncer colorretal, diagnóstico em idade jovem ou tumor com instabilidade de microssatélites levantam a suspeita e podem indicar aconselhamento genético.
Jovens podem ter câncer de intestino?
Sim. A doença é mais comum com a idade, mas os diagnósticos em adultos jovens vêm aumentando. Sintomas persistentes devem ser investigados em qualquer idade.
Colonoscopia dói?
Em geral, não. O exame é feito com sedação. A parte mais desconfortável costuma ser o preparo do intestino no dia anterior.
O exame de sangue oculto nas fezes substitui a colonoscopia?
Para rastreamento em quem não tem sintomas, o teste imunoquímico fecal (FIT) é uma opção válida e virou referência no SUS. Se der positivo, é preciso fazer colonoscopia. Para quem tem sintomas, o exame indicado é a colonoscopia.
Fontes
- National Comprehensive Cancer Network (NCCN). Clinical Practice Guidelines in Oncology: Colon Cancer, 2026. Acessar
- National Comprehensive Cancer Network (NCCN). Clinical Practice Guidelines in Oncology: Rectal Cancer, versão 2.2026. Acessar
- Argilés G, et al. Localised colon cancer: ESMO Clinical Practice Guidelines for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology, 2020. DOI
- Hofheinz RD, et al. Localised rectal cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Annals of Oncology, 2025. DOI
- Feng Q, et al. Robotic vs laparoscopic surgery for middle and low rectal cancer: the REAL randomized clinical trial. JAMA, 2025. DOI
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). Câncer de intestino. Acessar
- Instituto Nacional de Câncer (INCA). SUS adota novo exame para detectar câncer de intestino antes dos sintomas, 2026. Acessar
Sobre o autor
Dr. Lucca Jaeger · Cirurgião Geral | Atuação em Cirurgia Oncológica e Robótica · CRM-RJ 52-109692-3 · RQE 50622
Publicado em 01/11/2026 · Revisão médica em 01/11/2026
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Quem tem sintomas, exame alterado ou diagnóstico de câncer de intestino pode agendar avaliação presencial em Botafogo, na Glória ou em Madureira, ou online. As opções de cirurgia, incluindo a robótica, estão na página de tratamento do câncer de intestino no Rio de Janeiro.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Cada caso é avaliado individualmente.

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